Arsene Wenger: Do invencível ao decadente

 

 

Não é novidade que os técnicos dos clubes ingleses possuem uma relação muito intensa com a equipe. Brian Clough colocando o Nottingham Forest no topo da Europa nos anos 80. Bill Shankly criando o Liverpool moderno, fazendo várias transformações no clube. Sir Alex Ferguson e seus 26 anos à frente do Manchester United e seus grandes títulos. No Arsenal, não foi diferente. O clube londrino teve Arsene Wenger, o último desses revolucionários que ainda exercia sua função à beira do gramado. Na última sexta feira, o técnico entrou em acordo com a diretoria dos gunners e anunciou o fim dessa relação. Hora de relembrar essa passagem marcante do comandante.

A Chegada de Wenger ao Arsenal

O começo da Era Wenger

 

Em 1996, o Arsenal passava por muitos problemas. O clube londrino não ficou no top 4 da Premier, seu ídolo e capitão Tony Adams admitiu seus problemas com o álcool, era necessário mudar. Uma carreira irrelevante como jogador, trabalhos como técnico que fizeram o técnico parar no Japão, essas eram algumas características do francês comentadas pela torcida. Mas ainda assim havia esperança, pois Arsène Wenger fez um bom trabalho no Mônaco. Revelou jogadores, técnicas modernas que faziam um bom futebol dentro de campo.

No entanto, o desafio na terra da rainha e na ascendente Premier League era bem mais difícil. Um obstáculo importante: Nacionalidade. Nos dias atuais, isso pode parecer bem irrelevante, mas na época, não era. O motivo era simples: Desde a primeira edição do campeonato inglês, em 1888, nenhum técnico que não fosse inglês ou escocês havia sido campeão. Além disso, Wenger tinha em mãos um elenco predominantemente britânico.

Com certeza se hoje os estrangeiros predominam na Premier League, muito disso se deve ao sucesso e ao bom trabalho realizado por Wenger.

A Revolução de Wenger

A revolução do comandante não foi apenas nas 4 linhas. Ele mudou hábitos alimentares, treinamentos e principalmente, a mentalidade dos atletas. Para se ter uma ideia, Wenger fez com que as refeições dos jogadores passassem a ser juntas com a comissão técnica. Além de fiscalizá-los, tinha o objetivo de aumentar a união do grupo. Trocou a carne vermelha pelo frango, trouxe profissionais específicos, como fisioterapeutas e nutricionistas.

Desde a sua chegada, Wenger era a esperança para acabar com os gritos de “Boring Football”, que representavam a insatisfação com o futebol tedioso dos Gunners. E ele conseguiu. Na sua primeira temporada, um bom trabalho com a 3ª posição. Na temporada seguinte, Overmars e Pétit foram contratados e se juntaram aos craques Bergkamp e Vieira que já estavam no clube. Resultado: Dobradinha com a Copa da Inglaterra e Premier League. Para se ter uma ideia, o clube londrino alternou entre campeão e vice com o Manchester United por sete anos seguidos. Era a principal rivalidade na época, dominaram a Inglaterra nesse período.

Os Invencíveis

O principal trabalho de Wenger foi moldado a cada janela de transferências que se passava. Até o resultado estourar nos invencíveis. Campeão invicto da Premier League, um futebol doutrinador e sem duvidas, o maior time da história do Arsenal. Lehmann, Laurén, Campbell, Kolo Touré, Ashley Cole, Gilberto Silva, Vieira, Pires, Ljunberg, Bergkamp e Henry fizeram o que ninguém imaginava. 49 jogos de invencibilidade e apenas 4 partidas sem marcar.

 

É uma pena que Wenger nunca tenha conseguido levar o sucesso nacional, em resultados, para a Europa. Até o auge do treinador e dos Gunners, a eliminação que até hoje é “inexplicável” aconteceu para o Chelsea de Cláudio Ranieri. Os invencíveis foram eliminados e até hoje fica o gostinho amargo. O último suspiro daquela equipe aconteceu dois anos depois, na temporada 2005-2006. Três mudanças foram feitas daquela equipe que conquistou a Inglaterra anos atrás. Eboue na lateral direita substituindo Lauren. O promissor Cesc Fábregas para o lugar de Vieira, vendido a Juventus. Na frente, Hleb jogando mais que Bergkamp, naquele momento a aposentadoria já era questão de tempo. Para a tristeza do Arsenal, havia o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho na final. Mesmo abrindo o placar, os Gunners levaram a virada e acabaram ficando com o vice.

Wenger e a Taça da Premier League

O Declínio de Wenger

O declínio de Wenger veio após essa final. Uma série de jogadores acabaram deixando o clube e o período mais difícil se aproximava. Em 2006 o Arsenal estava pagando muitas dividas, e precisava vender seus melhores jogadores para equilibrar as finanças. Outro fator que fez o clube londrino investir menos no seu elenco foi a construção do Emirates Stadium. Na época, a equipe jogava no místico Highbury, mas mesmo com toda a mística do estádio, era muito mais rentável a construção de um novo lar.

 

De 2006 a 2014 Wenger se contentou em comemorar apenas vagas na Champions League. A pressão por resultados aumentava e com a ascensão de Chelsea e Manchester City as coisas pioraram ainda mais. O técnico francês ainda conseguiu vencer 2 copas da Inglaterra: 2014 e 2017. Mas foi muito pouco para quem já produziu tanto. Outro fator que pesou muito foram as incontáveis eliminações por placares elásticos na Champions League. Não dava mais.

Gratidão pelo passado, mas e agora?

O torcedor do Arsenal que estava impaciente nos últimos anos e já pedia a demissão do técnico, sem duvidas é grato por tudo que Wenger fez. Por isso que esse acordo feito entre direção e o técnico foi crucial. Não ver Arsene ser chutado pelo clube, é importante para quem viveu todos aqueles momentos de glórias passadas. Mas ao mesmo tempo que existe a gratidão, há o alívio e uma esperança de final glorioso com título da Europa League.

You may also like...

1 Response

  1. Felipe diz:

    Muito bom o texto, análise precisa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *