Entre aberturas e retrocessos – Mulheres e o futebol

Exatamente uma semana antes do Dia Internacional da Mulher, duas mulheres foram presas no Irã por tentarem entrar no estádio da capital Teerã para ver o clássico local e 35 foram impedidas de entrar no estádio.

Oitenta mil pessoas em um estádio milimétricamente dividido em azul e vermelho e nenhuma mulher poderia entrar.

Esteghlal Football Clube e Persepolis Football Club estavam frente à frente no Estádio Azadi para disputa do clássico, que esse ano completa 50 anos, válido pela 24ª rodada da Iran Pro League, que contava nesse dia com as ilustres presenças do Ministro dos Esportes do Irã, Masoud Soltanifar, e do Presidente da FIFA, Gianni Infantino.

Gianni Infantino, presidente da FIFA, posa com o presidente iraniano Hassan Rouhani

Gianni Infantino, presidente da FIFA, posa com o presidente iraniano Hassan Rouhani. (Foto: HO/AFP)

O porta-voz do Ministério do Interior do Irã, Seyyed Salman Samani, informou que as torcedoras não foram presas, mas transferidas pela polícia para um “local apropriado” e que foram liberadas ao final da partida.

No dia seguinte ao ocorrido em Teerã, já em Zurique, na abertura da Conferência de Igualdade e Inclusão da FIFA, Gianni Infantino declarou ter recebido garantias do governo iraniano de que em breve as fãs do futebol persa poderão entrar nos estádios para assistir as partidas.

Será?

Desde a Revolução Islâmica do Irã, em 1979, as mulheres são proibidas de assistir jogos de futebol nos estádios. Essa restrição tem provocado uma série de protestos no país nos últimos anos, inclusive, as ativistas dos direitos das mulheres convocaram as torcedores pelas redes sociais para esta partida, justamente pela presença do Presidente da FIFA.

A Revolução Islâmica, liderada pelo aiatolá Khomeini, colocou os dogmas do Islamismo acima de todos os valores democráticos ocidentais, alterando profundamente a estrutura social do país. O processo que originalmente era democrático e visava a melhoria na qualidade de vida dos cidadão acabou se transformando em um governo de um chefe religioso extremamente radical.

A pena de morte e os castigos corporais foram liberados para quem violasse os preceitos do Islã. Hábitos ocidentais, vestimentas, músicas, arte e cinema foram proibidos por corromperem a juventude iraniana.

Para se ter uma idéia, as mulheres sequer podem retirar o hijab, veú islâmico que elas usam para cobrir rosto e a cabeça, em locais públicos.

Já houve inclusive pedido do capitão da seleção persa, Masoud Shojaei, pelo fim do banimento. Mas a iniciativa não surtiu efeito.

Muitas mulheres desafiam o regime e chegam a se vestir de homens para se misturar a multidão e verem os jogos. O filme Offside, de Jafar Panahi, que foi lançado em 2006 discute a fundo essa questão.

Darya Safai usou a Rio 2016 para militar sobre a liberdade das mulheres islâmicas.

Darya Safai usou a Rio 2016 para militar sobre a liberdade das mulheres islâmicas.

E o jogo?

O Esteghlal venceu a partida por 1 a 0, gol marcado por Vouria Ghafouri ao final da primeira etapa e se manteve na terceira colocação, 16 pontos de diferença para o líder Persepolis. Faltam apenas 5 rodadas para o final da competição e o Persepolis garante o título antecipado, vencendo o Saipa em casa na próxima rodada dia 29 de março.

Infelizmente, por lá, as mulheres ainda terão que comemorar em suas casas, pois estão sozinhas em sua luta já que o ocidente se cala frente a tamanha imposição repugnante.

Esteghlal FC x FC Persepolis

E o lado “ocidental” da coisa?

Por aqui, na cultura ocidental, a luta pela igualdade também existe.

Mais precisamente nos Estados Unidos, há exatos dois anos, as atletas lutavam publicamente pela igualdade de salários, lideradas pelas atletas da Seleção Americana de futebol. Um ano depois, conseguiram um contrato coletivo de trabalho.

Pegando carona no exemplo norte-americano, as canadenses pleitearam incluir licença maternidade nos contratos das jogadoras.

Hoje, atletas de outras modalidades se espelham e buscam conselhos com o grupo de atletas da Seleção Americana tentando vencer as barreiras em suas carreiras.

No Brasil, as atletas da Seleção Brasileira protestaram ano passado contra a demissão da treinadora Emily Lima, primeira treinadora mulher da Seleção Brasileira em 30 anos, para dar lugar a volta do técnico Vadão. O técnico perdeu inúmeras atletas com uma debandada em massa da seleção.

A luta das mulheres é constante e um movimento contínuo de união dentro e fora do esporte que além de tudo inspira novas mulheres e levantar sua bandeiras até então dobradas e escondidas nas gavetas.

Fábio Vilela

Fábio Vilela cozinha, desenha, fotografa, coleciona camisas e gosta de falar de futebol. Adora lembrar dos craques dos anos 90 e da época de ouro do Calcio. Relembra com nostalgia dos seus esquadrões de futebol de botão, que ele mesmo fazia. Fã de polêmicas e de Cantona, Sérgio Ramos, Luis Suarez, Batistuta e acha La Bombonera o estádio mais legal do mundo.

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