Manchester United 1968: Do luto a Reis da Europa

Antes de chegar ao ano de 1968, é necessário entender todo caminho percorrido pelos diabos vermelhos antes de serem o primeiro clube inglês campeão da Uefa Champions League, ao derrotar o Benfica na final, por 4×1, em Wembley.

Dez anos antes, o Manchester United viveu o pior momento de sua história belíssima. Após um confronto vitorioso pelas quartas de finais contra o Estrela Vermelha, que lhe garantiu a vaga entre os quatro melhores clubes daquela competição, um desastre aéreo aconteceu e deixou cicatrizes incuráveis até os dias de hoje. Cerca de 23 pessoas morreram naquele voo que caiu nas proximidades de Munique, incluindo jornalistas, jogadores, membros da comissão técnica e passageiros. Alguns atletas que sobreviveram a esse desastre, como Sir Bobby Chalton, foram cruciais para a reabilitação do clube.

Manchester United 1968: Do luto a Reis da Europa

Na temporada seguinte ao acidente, o United surpreendeu a todos e acabou ficando na segunda posição do Campeonato Inglês. No entanto, os Busby Babes, ficaram cada vez mais desfalcados, e a renovação preveria campanhas bem modestas na liga nacional. O primeiro título pós desastre veio em 1963, com a vitória por 3×1, em Wembley, contra o Leicester na final da Copa da Inglaterra. Nesta mesma temporada, os diabos vermelhos ficaram a três pontos da zona de rebaixamento no campeonato. Os anos seguintes serviriam de reafirmação, para enfim, o comandante Busby voltar a buscar seu maior desejo: Champions League.

Para ser rei da Europa pela primeira vez, era necessário dominar em casa de novo. A espera pela reconquista da Inglaterra durou sete anos, e veio na temporada 1964-1965. Os diabos vermelhos igualaram os mesmos 61 pontos do Leeds United, mas ficaram com o título graças ao extinto gol average(divisão de gols marcados pelo número de gols sofridos). Com a conquista do campeonato, o United voltou a disputar a Champions pela primeira vez após ter seu sonho interrompido no desastre em Munique e pelo Milan, algoz dos sobreviventes na semifinal daquela temporada.

Manchester United 1968: Do luto a Reis da Europa

Naquela época, em que os ingleses não se importavam com a Champions, Busby vinha na contramão. Para o comandante, a conquista de um título inédito até o momento, era de extrema importância para que o continente se rendesse ao nível de excelência da sua equipe. Era uma questão de honra. No entanto, o desejo não se cumpriu na temporada 1965-1966. O Manchester United até fez uma boa campanha, com show de George Best, os diabos vermelhos eliminaram o grande time do Benfica nas quartas de final. Porém, o sonho foi adiado mais uma vez a um passo da decisão, com uma derrota para o Partizan Belgrado. Ao menos, a nova chance não tardaria. Após conquistar mais uma vez o Campeonato Inglês em 1966-1967, os diabos vermelhos voltariam para fazer história.

Desta equipe campeã, apenas três dos sete jogadores que sobreviveram e continuaram a atuar no United, faziam parte do elenco. O goleiro Harry Gregg, herói que salvou vários de seus companheiros em meio ao caos do acidente, mas já vinha numa série de contusões e ocupando o banco de reservas. No fim da temporada, deixou o clube e não participou da Champions. O zagueiro Bill Foulkes, que teve uma lesão na cabeça, mas saiu com ferimentos mínimos da tragéda e continuava sendo um suporte no sistema defensivo do United. E por fim, o mais famoso de todos: Sir Bobby Chalton. 10 anos antes, era dado como morto até ser resgatado pelo seu companheiro Gregg. No auge dos seus 30 anos, tinha a missão de ser a referência daquele esquadrão.

Manchester United 1968: Do luto a Reis da Europa

A campanha sólida do United na Champions 1967-1968, começou com uma goleada por 4×0 no teatro dos sonhos contra o Hibernians, clube de Malta. No jogo de volta, os diabos vermelhos empataram por 0x0 e confirmaram a classificação para as oitavas de final. O adversário da vez era o Sarajevo, da Iuguslávia. No primeiro duelo em solo inimigo, o United ficou no 0x0 e tinha a vantagem de decidir em casa. E não perdeu a chance, com gols do lendário George Best e de John Aston, os comandados de Busby venceram por 2×1 e avançaram paras as quartas de final, onde enfrentariam o Górnik Zabrze. Um 2×0 em Manchester com um gol aos 44 da etapa final foi crucial para a classificação do United. No jogo da volta na Polônia, os anfitriões venceriam por 1×0, o que não seria suficiente para eliminar os diabos vermelhos. O clube mais uma vez estava entre os quatros melhores da Europa.

Eis que na semifinal, vem o temido Real Madrid, algoz do clube na mesma fase durante a temporada 1956-1957. Detentor de seis títulos na época, os merengues chegavam para este duelo como o maior desafio possível para o United. Vale ressaltar que o clube espanhol foi importantíssimo financeiramente na reconstrução dos diabos vermelhos.

No jogo de ida em Old Trafford, o gol salvador de George Best deu uma boa vantagem para a volta, no Santiago Bernabeu, em Madrid. O primeiro tempo na capital espanhola acabou da pior maneira possível. 3×1 para os donos da casa e o sonho da final cada vez mais distante. No entanto, o discurso apresentado pelo comandante Busby serviu de motivação para a etapa complementar. Os diabos vermelhos voltaram melhor e descontaram com Sadler em uma jogada ensaiada. O gol da classificação veio aos 35 do segundo tempo, com uma jogada sensacional de Best para o xerifão Bill Foulkes estufar as redes merengues. Justo ele, um dos sobreviventes da tragédia em Munique, demonstrou seu raro faro de artilheiro e decidiu a favor do United. Para se ter uma idéia, Foulkes marcou apenas nove gols em quase 700 jogos pelo clube. Ao fim da partida em Madrid, o choro de Bobby Chalton representava a façanha que eles haviam conseguido. Era hora da final!

Manchester United 1968: Do luto a Reis da Europa

Wembley ser palco da decisão foi um tremendo prêmio para o Manchester United. Não era a chance apenas de conquistar o título diante de sua torcida, mas também ser o primeiro clube inglês campeão da competição. O adversário da final, era um velho conhecido que havia sido vítima dos diabos vermelhos dois anos antes. O Benfica de Eusébio.

Várias caravanas saiam de Manchester rumo a Londres para a grande final. O público divulgado oficialmente foi de 92 mil torcedores, mas relatos afirmam que mais de 100 mil pessoas estavam presentes naquele decisão. A audiência da partida chegou a 250 milhões de telespectadores espalhados pela Europa, sendo a maior desde a Copa de 1966, também realizada em solo inglês. O sonho de Busby estava prestes a ser realizado.

Após um primeiro tempo bastante equilibrado, o Manchester United abriu o placar aos oito minutos da etapa complementar. Uma cabeçada de Bobby Chalton levou os ingleses a loucura e deixou os diabos vermelhos em vantagem. Faltando pouco menos de quinze minutos para o fim da partida, Jaime Graça empata para os portugueses. O Benfica teve nos pés de Eusébio a grande chance de matar o jogo, mas em uma grande defesa do goleiro Alex Stepney, a partida se manteve empatada e seguiu para prorrogação.

No tempo extra, os diabos vermelhos estavam visivelmente cansados, ainda mais por encararem um adversário tão físico como os encarnados. Só que naquele 29 de maio, a história sorriu para Busby. Aos dois minutos da etapa inicial da prorrogação, gol de Best e euforia nas arquibancadas de Wembley. Passados mais dois minutos, Brian Kidd, no seu aniversário de 19 anos ampliava o marcador a favor dos diabos vermelhos. Para fechar a conta, o símbolo de toda reconstrução do United, Bobby Chalton. Ponto final escrito por um dos maiores jogadores da história do clube, que teve o prazer de erguer a taça como capitão.

Manchester United 1968: Do luto a Reis da Europa

A história foi feita. Reis da Europa pela primeira vez.

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